A Serra da Borborema tem muito a contar sobre os tropeiros e o algodão

Na Paraíba, a história do algodão pode ser contada por meio da história dos Tropeiros da Borborema. Estes corajosos homens conduziam tropas de burros em uma serra perigosa. Na época, era até mais conhecida como “Serra da Viração” devido ao alto número de acidentes.

Algodão herbáceo Moco.

Na década de 1930, Campina Grande, na Paraíba, era o 2º maior exportador de algodão do mundo. O 1º era Liverpool, na Inglaterra. E os Tropeiros da Borborema fizeram acontecer o ciclo do chamado “Ouro Branco”.

Confira o relato de Francisca Vieira, CEO da Natural Cotton Color – NCC Ecobrands:

“Meu pai, quando menino, ia em cima das cangalhas, no meio das cargas de algodão acompanhando meu avô nas viagens. Meu avô era tropeiro e tinha uma das maiores tropas de burro da região.

O percurso das comitivas de tropeiros podiam durar um mês. No caminho paravam em ranchos feitos de estacas de madeira e cobertos de galhos de árvores. Ali acendiam uma fogueira e assavam carne de sol e comiam com farinha de mandioca e rapadura. Saíam em comitiva da cidade de Itaporanga, onde nasci, e chegavam em Campina Grande onde descarregavam os fardos de algodão. Voltaram pra casa com mantimentos como milho, arroz e feijão.

Planalto da Borborema.

Planalto da Borborema. Itaporanga, cidade do Vale do Piancó, na Paraíba. Ao fundo, açude Coremas.

Descarregavam o algodão na rua Marques de Herval e os animais ficavam pastando e esperando as novas cargas na beira do açude velho, fatos este que vim a comprovar no acervo fotográfico de Edson, exposto no restaurante Manoel da carne de sol. Depois meu pai já rapazinho e meu avô diversificando seus negócios, já vendia rapadura para o Ceará e meu pai ficou encarregado deste novo comercio.

Após a morte do meu avô ele herdou sua própria fazenda e começou a plantar o algodão e ter seu próprio armazém chegando a ter o primeiro caminhão na cidade.

Hoje meu pai já falecido, eu trabalhando com algodão colorido e não poderia deixar de contar um pouco desta história linda que é reforçada no texto do professor José Romero* e terminar com a letra da música Tropeiros da Borborema”.

 

Tropeitos da Borborema - Campina Grande - Paraíba

Foto da Rua Marquês do Herval, no ano de 1936, quando ali funcionava um dos locais de comercialização de algodão, dos quais se espalhavam grandes fardos do “Ouro Branco”, sob responsabilidade dos grandes comerciantes do gênero, com firmas estabelecidas na região central da cidade. A autoria da foto é desconhecida porém, está creditada ao acervo particular de Lêda Santos Andrade, utilizada no TCC de Júlio César Melo de Oliveira, no Curso de Bacharelado em Geografia da UFPB, 2007.

 

Para vencer os obstáculos representados pelo Planalto da Borborema, conduzindo tropas de burros, precisava ser muito corajoso. Conforme a professora Inês Caminha Lopes Rodrigues, em “Revolta de Princesa: Contribuição ao Estudo do Mandonismo Local”, a barreira geográfica era um grande empecilho para o escoamento da produção sertaneja, o que justifica em parte as decisões dos produtores da região polarizada por Princesa de buscar na época as praças pernambucanas a fim de implementar os negócios.

Os tropeiros da Borborema sintetizaram a coragem inaudita do povo interiorano em vencer barreira, razão pela qual a imortalidade suscitada na eterna composição de Asfora e Cavalcanti tem a característica de ser oportuna e pioneira na homenagem aos grandes seres humanos que hoje estão representados em monumento em Campina Grande.

A belíssima canção reconhece em seus refrães finais que Campina Grande somente tem a sua grandeza devido à presença chamado Luiz Gonzaga do Nascimento, responsável pela impecável voz para a eternidade da música, pois quando o eterno “Rei do Baião” interpretou “Tropeiros da Borborema” lançou imediatamente as bases da imortalidade desta magistral poesia nordestina surgida nas paragens da antiga Vila Nova da Rainha. Devido à presença de várias empresas que desenvolvem tecnologia de ponta, havendo ênfase ainda aos estudos e experiências que resultaram nas impressionantes fibras do algodão colorido, que são orgulhos da cidade de Campina Grande e motivos que a tornaram conhecida internacionalmente como polo dinâmico e criativo de um nordeste que precisa e pode crescer em ritmo cada vez mais intenso. 

(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor-adjunto do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.

Tropeiros da Borborema – cantada por Luis Gonzaga
letra de Raimundo Asfora e Rosil Cavalcante

Estala relho marvado
Recordar hoje é meu tema
Quero é rever os antigos tropeiros da Borborema
São tropas de burros que vêm do sertão
Trazendo seus fardos de pele e algodão
O passo moroso só a fome galopa
Pois tudo atropela os passos da tropa
O duro chicote cortando seus lombos
Os cascos feridos nas pedras aos tombos
A sede e a poeira o sol que desaba
Rolando caminho que nunca se acaba
Estala relho marvado
Recordar hoje é meu tema
Quero é rever os antigos tropeiros da Borborema
Assim caminhavam as tropas cansadas
E os bravos tropeiros buscando pousada
Nos ranchos e aguadas dos tempos de outrora
Saindo mais cedo que a barra da aurora
Riqueza da terra que tanto se expande
E se hoje se chama de Campina Grande
Foi grande por eles que foram os primeiros
Ó tropas de burros, ó velhos tropeiros

 

 

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